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eternuridade
Eternuridade, s.f. (do lat. aeternitate por aglutinação com do lat. ternu). Qualidade efémera do que é terno. O que há de eterno no transitório. Afecto muito longo; tristeza suave e demorada. textos e fotos: gouveiamonteiro(at)gmail(dot)com LIGAÇÕES
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29 de novembro de 2003
Dores de crescimento
No ecrã em branco percebo finalmente o Logro. Alguém colocou na cabeça de todos os seres a ideia de que há neles algo de especial, uma predestinação. Por isso julguei que seriam magníficas as coisas que me atravessam a cabeça e depois fogem. Que no dia em que finalmente me dedicasse à escrita o espírito me abasteceria com mãos cheias de génio e fogo de artíficio. Que apenas por juvenil luxo não dava às inspirações um destino diferente do esquecimento. Pois bem, é tudo falso. Está escrito.
.: Publicado por lgm @ 11/29/2003 - 0 Comentário(s)
28 de novembro de 2003
Ainda bem
A amizade não tem nada a ver com reciprocidade. Ainda bem.
.: Publicado por lgm @ 11/28/2003 - 0 Comentário(s)
23 de novembro de 2003
Era assim que eu queria escrever, e tu?
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
e eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Guardador de rebanhos, Alberto Caeiro
.: Publicado por lgm @ 11/23/2003 - 0 Comentário(s)
20 de novembro de 2003
Registo Ideológico
O Público protagonizou um momento de feliz desassombro ao publicar em lista a face mais visível do trânsito de jornalistas entre as redacções e os gabinetes ministriais. Não tem mal nenhum, os jornalistas podem e devem ser claros em relação aos vínculos que têm. Anormal é fingir que não se tem clube, que não se toma partido, que não se tem alma.
Dito isto e sendo jornalista obrigo-me desde já a fazer esse registo ideológico: Sou do Sporting. Fui comunista até ao primeiro ano do ciclo. Ainda na primária colei cartazes da APU. Se não me falha a memória abandonei a ideologia por volta dos 11 em virtude do falhanço da Perestroika, que muito me entristeceu.
Entrei para o liceu sem partido e assim continuei, sempre pela esquerda, e depois pelo Nietzsche. Achei alguma graça à plataforma de esquerda, mas já tinha trabalho de sobra na associação de estudantes.
Aos 17 li no Independente sobre um novo jornal de esquerda, com o número de telefone. Liguei. Atendeu o Miguel Portas. Fui servir cafés no Manifesto do Ivan Nunes, do Daniel Oliveira, do Miguel Portas e do Paulo Varela Gomes. Depois ajudei no início da Política XXI, mas cedo percebi que a política não é a minha praia. As minhas convicções são todas líquidas. Dessa política sou apenas consumidor e crítico tacanho, porque aí não me move a paixão. O meu sonho é o da filosofia instantânea dos Reflexos de Azul Electrico. Palavras orgânicas e coisas em forma de assim.
Quanto ao resto e resumindo: sou quase sempre de esquerda, não tenho partido, mas tomo partido.
.: Publicado por lgm @ 11/20/2003 - 0 Comentário(s)
18 de novembro de 2003
A boca do Lobo
.: Publicado por lgm @ 11/18/2003 - 0 Comentário(s)
15 de novembro de 2003
Posta Restante

Vou aos favorites, clico no link. Abro o blogger, logo-me logo. Penso em escrever qualquer coisa quente, uma coisa nova. Mas nada. Posto isto hesito. E decido não publicar este post.
.: Publicado por lgm @ 11/15/2003 - 0 Comentário(s)
E não se pode cozinhá-los?
Era uma vez o dia em que o grande líder decidiu exterminar os estorninhos. O diabo dos pássaros comia uma parte significativa das colheitas de arroz. Arregimentaram-se as mulheres e os homens capazes e durante horas, dias a fio rufaram tambores, tantos quantos havia na terra do grande líder. Os pássaros, em algazarra, incapazes de pousar, só eram capazes de cair quando já se lhes apagava o último sopro de vida. Exterminaram-se os estorninhos. No ano seguinte, pragas nunca vistas de insectos outrora comidos pelos defuntos estorninhos devastaram a maior parte das colheitas. Nesse ano o grande líder deu ordens para que se confeccionasssem os tambores.
.: Publicado por lgm @ 11/15/2003 - 0 Comentário(s)
4 de novembro de 2003
A vida eterna é uma impossibilidade. Se fosse eterna não era vida, era outra coisa qualquer. Vida inclui morte. O contrário da morte é o nascimento, não é a vida.
.: Publicado por lgm @ 11/04/2003 - 0 Comentário(s)
CAIXA NEGRA
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