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eternuridade
Eternuridade, s.f. (do lat. aeternitate por aglutinação com do lat. ternu). Qualidade efémera do que é terno. O que há de eterno no transitório. Afecto muito longo; tristeza suave e demorada. textos e fotos: gouveiamonteiro(at)gmail(dot)com LIGAÇÕES
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13 de setembro de 2003
O artista (III)

A um instante de deixar a condição humana o náufrago tem que olhar à volta e tirar conclusões. Depressa, já que os reflexos são a chave dos predadores. O náufrago carrega há séculos o peso bélico de biliões de anos de armazenamento e caça. Por isso ainda é estúpido sem querer. A dúvida é lenta. Se muito penso, logo morro é a frase de todos os homens com pressa. A emancipação surge quando se age reflectidamente, mas com força.
Com os dados absolutos dentro da mão fechada o mestre-do-navio-que-deixou-de-o-ser sente que o número único que não pode ser outro ainda não está resolvido. Que a verdade única que o pode salvar demora, mas está pronta. O resultado do lance final de dados que se faz às portas da morte para descobrir a verdade da vida parece contrariar a predominância do acaso. Mas, para tudo conhecer, o homem tem que se despir do espaço.
Nesta quase derradeira altura o náufrago ainda pensa. O esforço que implica a realização do último e decisivo lance é mínimo, mas ele hesita ainda mais. Com o cadáver pelo braço ele é o artista perfeccionista, infinitamente duvidante. Se ele não realizar o lance, se não tentar descobrir o número único e perceber o mistério do mundo terá que sofrer a perseguição eterna de todos os seus antecessores. Vivos, mortos e por nascer. Todos os fantasmas nos exigem um lance, um golpe de asa decisivo que nos liberte do acaso. Que nos salve de não existir verdade no mundo.
A insanidade que nos faz perder dias a justificar acções passadas não resulta de nenhuma estupidez congénita. Acontece porque nada é certo senão a morte. A mania da hesitação repete pela eternidade a ancestral insânia de querer abolir o acaso onde tudo é hilaridade e horror; estrume e açúcar.

"As inclinações do ânimo fazem e destroem tudo. Costuma dizer-se que os nautas têm um receio extremo da calmaria e que só desejam vento. Os movimentos do ânimo são, no caso dos homens, esses ventos necessários para pôr tudo em movimento, apesar deles por vezes provocarem tempestades."
A morte não está longe mas leva tempo. A pequena razão viril de um homem é humana, não é ideal. Ideal só uma pluma branca, leve e com a verdade risível da primeira sabedoria. Ao longo da vida o espirito humano percorre uma escada. Chega à cripta onde estão os túmulos e as cinzas de todos os antepassados. Os degraus que percorreu são feitos das pedras funerárias de todas as sombras e o ser absoluto terá que passar por todos os degraus reunindo em si o percurso do desenvolvimento espiritual da humanidade. O caminho de todos os que procuram, desde a origem, o Absoluto.
E o náufrago já só sente:
- Julgei ter visto uma espiral. Devo ter-me enganado porque agora vejo o discurso da análise. De um lado o discurso da análise, do outro o discurso da revelação. O vento leva as minhas palavras, mas trá-las de volta. É a implosão do discurso rumo à verdade.
O náufrago é finalmente submergido pelas ondas, que o transformam em sombra pura. Destas núpcias macabras nasce uma chance ociosa. O desgraçado e as vagas partilham um dilema maligno que só pode ter uma de duas soluções: ou o velho se deixa ir nas águas no definitivo silêncio das espumas sem cumprir o seu designio; ou o náufrago tenta resistir ainda um pouco mais para, em nome das ondas, realizar um lance de dados cujo resultado só as aguas guardariam.
Qualquer que seja a escolha, as consequências serão idênticas. O sofrimento será o mesmo. Não somos esquizofrénicos por malformação ou doença, apenas porque nada nos justifica a não ser nós próprios. A única coisa que poderá legitimar um acto será a forma como o encadeamos com o seguinte. Isto se tivermos o especial cuidado de dar algum sentido à pequena ficção histórica que constitui e forma a vida de cada um. O problema é que essa pequena história não tem moral nem propósito enquanto não se inventar um simulacro novo. Enquanto não surgir um livro maior do que a Bíblia. Mas se não há um livro falante que nos ensine a agir e a parecer, então há o quê?
"Há a terra, que é semelhante a grandes lages de pedra sobre as quais todos querem escrever o nome. Ora, uma vez cheias todas as lages, é preciso apagar os nomes velhos e gastos para escrever outros no seu lugar". Não há homem justo que não sinta sobre si o peso de fazer o lance final, o lance que lhe garanta, mesmo morto, a pedra eterna. "As boas histórias só acontecem a quem as sabe contar. "
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