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eternuridade
Eternuridade, s.f. (do lat. aeternitate por aglutinação com do lat. ternu). Qualidade efémera do que é terno. O que há de eterno no transitório. Afecto muito longo; tristeza suave e demorada. textos e fotos: gouveiamonteiro(at)gmail(dot)com LIGAÇÕES
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7 de fevereiro de 2006
Os all star da menina do terceiro



- introdução -
Há uns anos o João Almeida andava lá pelo escritório a perguntar qual tinha sido o momento mais feliz das nossas vidas. Fiz o possível para lhe explicar a sequência de acontecimentos que levaram ao roubo dos all star da menina do terceiro. Aconteceu na Calçada de Carriche, em Lisboa, em 1993.
À medida que esta história está a ser escrita, várias fontes estão a contribuir para o esclarecimento dos factos. A coisa está a ser tão participada e é tanta a documentação a receber que me arrisco a ficar entre mãos com uma compliação em volumes da história da delegação jovem da Calçada na Escola Secundária do Lumiar, entre 1988 e 2003. Muito sabem sobre isso pessoas como Luís Faustino, Rui Pedro, Ana Costa, Pedro Serro, Inês Lopes, Diogo Dias, Pedro Cholas e Gonçaalo Vaquinhas, entre tantos outros, todos envolvidos na conspiração que quase levou a Ana do terceiro à loucura.
Naquela altura o bairro contava com uma pequena multidão de rapazes e raparigas à beira de acabar o liceu. Uma rapaziada bastante afoita e gregária. Faziam-se lanches no campo, passeios em matilha, desportos de todo o género. Mais ou menos como hoje, mas há 10 anos, o que dá muito mais interesse à coisa. Havia muita gente e bastante vontade.
O centro possível deste pequeno universo era um café chamado Popicas. Nas noites de Verão, como em boa parte do ano, a gente andava na rua. Há vários meses morava no meu prédio (o 1693), no terceiro andar, uma rapariga que começou por se chamar a menina do roupão.
Como a rapariga morava no terceiro andar as janelas da sua casa estavam especialmente expostas. No prédio em frente havia uma espécie de vazado, umas galerias de acesso livre onde estava instalada a esplanada do famoso Popicas. Ora aquele terceiro andar era como um ecrã de cinema para nós, os da esplanada. Tanto mais que havia la dentro uma jovem menina com uma cara muito bonita (o roupão e o enquadramento da varanda não deixavam ver mais nada).

- o golpe -
Numa dessas noites quentes de Verão regressei a casa por volta da uma da manhã. Tinha estado nos bancos, à conversa. Reparei em algo estranho que se repetia há uma ou duas semanas: a menina do terceiro deixava dois pares de all star no parapeito da varanda. Já tinha discutido o facto com o Faustino, o Diogo e o Becas, salvo erro. Mas não havia maneira de se perceber qual a resposta adequada a dar aquela estranha situação. É que era mesmo estranho aquilo na fachada do 1693. Eu morava no oitavo andar, letra D, tal como a menina do terceiro. Mesmo por cima, com cinco andares pelo meio.
Apesar da distância, as sapatilhas pareciam bastante vulneráveis ali. Devia ser possível fazer qualquer coisa. Mal cheguei ao quarto fui para a varanda, olhar para eles. Durante a viagem no elevador lembrei-me que talvez houvesse coisas da pesca, da Berlenga, guardadas algures. Mas não, não encontrei nada. Nem sequer corda ou coisa parecida. Fio de costura, bem frágil, era a única coisa à mão.
No fundo, e por falar em Berlenga, aquela parecia-me uma oportunidade única para uma partida à altura das que o meu pai e os meus tios faziam (e outros que tais antes deles). Tinha ouvido relatos empolgantes de um assalto à adega da fortaleza da Berlenga, uns rumores sobre um auto-denonominado grupo revolucionário anti-galinácio que limpava as capoeiras de familiares para celebrar a revolução e a juventude e façanhas afins. Esse tipo de aventureirismo juvenil sempre me pareceu uma boa maneira de usar a cabeça e de matar o tempo, de o parar por uns instantes.
Estou portanto no meu quarto, já são quase duas da manhã. Não posso sequer fazer muito barulho porque os meus pais e a minha irma não tem a minha vida e estão a dormir. Os quartos deles também dão para a varanda mas têm as persianas fechadas. A temperatura está boa, acho que estamos em Agosto. Estava, sem dúvida, uma temperatura boa. Mas corria uma daquelas brisas capazes de desenhar um pequeno arco numa linha de costura com um isqueiro a fazer peso na ponta, entre o terceiro e oitavo andar de um prédio na Calçada de Carriche.
O isqueiro não funcionava. Era difícil de prender e não fazia peso sufuciente. O que me dava jeito era uma chumbada da pesca, mas não havia. A única coisa coisa parecida eram uns porta-chaves que tinha para vender. Eram umas daquelas bolas de corda, um nó de marinharia que se chama "pinha" ou coisa que o valha. Vendiam-se bem naquela altura. Tinham peso suficiente e era só dar um nó ao fio de costura. Agora faltava o anzol, também não havia. Havia a argola metálica dos porta-chaves. Aberta, desenrolada, transforma-se num S. A parte de cima do S prende-se à bola de corda, a parte de baixo serve de um anzol para atacadores. Por esta altura já deviam ser umas quatro da manhã e eu tinha a certeza que estava prestes a fazer cinema.
O novo dispositivo mostrou-se bastante mais sólido. O arco descrito fio era menor, mas continuava a ser complicado fazer cair o anzol improvisado mesmo em cima das sapatilhas. A mais de dez metros de distância, demorou cerca de uma hora. Finalmente picou. A corda ficou tensa, está fixo. Talvez por tique de pescador de água lusa, respondi com pequeno esticão que fez a corda partir. A presa no subiu mais do que um dedo, por isso não tombou do parapeito nem fez muito barulho. Esta pequena derrota provou a infalibilidade do sistema. Bastava multiplicar as fiadas de fio de costura atá haver resistência suficiente para fazer subir saque, o resto já funcionava.
Para aumentar a resistência do macanismo o sistema consistiu em ir baixando e subindo a bola presa na ponta do fio entre o oitavo e o terceiro andar. Repetida a operação uma dezena de vezes arrisquei um novo lance. Como o próprio fio já era mais pesado e dançava menos tornava-se mais facil a aparapeitagem. Foi o que aconteceu. Tinha picado outra vez, pelos atacadores. Puxei muito lentamente e o primeiro all star subiu, direitinho para as minhas mãos. A seguir vieram mais três: dois pares, uns pretos e uns azuis turquesa.
Pode parecer pouco, mais foi o instante mais feliz da minha vida (sem contar com os instantes em que foi a natureza a tratar dos efeitos especiais, como nascimento da minha irmã, por exemplo). Como tudo isto aconteceu uns anos antes dos telemóveis e por volta das seis da manhã foi um pouco frustrante não poder partilhar aquela excitação com alguém. A custo, terei conseguido adormecer por volta das seis da manhã.


- a cegada -
Foi um daqueles dias em que a vontade é tanta que custa dormir poucas horas. À hora de almoço já estava agarrado ao telefone a dar a boa nova ao pessoal da Calçada. Durante a tarde as hostes começaram a reunir-se. Havia a informação de que a menina do terceiro tinha ido à praia com a mãe, havia de chegar ao fim da tarde. Decidimos vasculhar os nossos armários para encontrar dois pares de all-star tão velhos quanto possível para depois os colocar no lugar do furto. Um breve viagem à loja de ferragens do Lumiar permitui substituir a linha de costura por um cordel mais sólido e pesado.
Pelas cinco da tarde tinha já uma dezena de cúmplices na minha varanda a tratar da operação. Até a minha mãe se empolgou com a façanha e deu os seus palpites. Em três tempos la fizemos descer as quatro velhas sapatilhas. Foi uma longa espera na rua, a rapariga nunca mais aparecia, a praia devia estar boa. Chegou por volta das sete. A mãe foi subindo, ela veio ter connosco.
Não sei ao certo quem estava no grupo que a recebeu, mas estava decerto a Inês Lopes, o Faustino, o Diogo Dias e eu. Aproximou-se com um sorrisso nervoso, ela estava sempre entre a desconfiança e a ironia.
- Inês, não acreditas no que me aconteceu hoje. Tinha deixado os ténis na varanda, ontem à noite, e hoje de manhã não estavam lá. - enquanto acabava de dizer esta frase rodou o corpo e olhar e apontou com o braço para a sua varanda, o movimento acabou mesmo no final da frase e a velocidade da enunciado foi perdendo gás, como uma música a perder rotações. Estavam lá dois pares de sapatilhas, o real tinha sido sabotado. Era a segunda vez que o tempo parava nas últimas 24 horas.


Os problemas com a gravidade não eram novidade naquele prédio

A inquietação da menina do roupão tinha apenas começado. Havia de durar duas semanas. Já nao me lembro do resto da conversa, mas tenho ideia de que ela não ficou muito tempo na rua e foi para casa. Convenientemente instalados na esplana assistimos à comédia das nossas vidas. A menina circulava furiosamente de uma divisão para outra, ora vinha à varanda indignar-se com as sapatilhas imundas, sempre discutindo com a mãe e o irmão - que era, naquela altura, o principal suspeito apesar da façanha não parecer adequada ao seu sentido de humor.
O pico do riso aconteceu pouco depois, quando a desgraçada menina do roupão, completamente vestida, pegou num dos all-star e o atirou para a rua, acertando em cheio num transeunte. Nunca vou esquecer aquela gargalhada que me deixou a rebolar no alcatrão.
A agitação continuou nos dias seguintes. O plano, muito simples, consistia em restituir o saque lentamente, menos de uma sapatilha por dia. Chegou a pensar-se em fazer descer uma galinha, mas a nossa querida vítima ja falava em espíritos, foi prudente não o ter feito. Assim, como a técnica já estava muito apurada e era mais facil fazer descer os objectos do que proceder à sua pesca, o atrevimento aumentou. As operações começaram a desenrolar-se até em plena luz do dia e com a menina do terceiro em casa.
Com intervalos irregulares comecei a devolver os quatro objectos furtados. As conversas com a menina do terceiro sobre o assunto eram cada vez mais deliciosas, havia a tentação irresistível de fazer render a graçola. Pelos sorrisos (aliás sempre) cúmplices da porteira dava a sensação que toda a rua se unira numa conspiração de silêncio. Da dona Emília à Alexandra do Popicas passando por todos nós e os nossos pais e vizinhos, ninguém deu à lingua. Como se naquela rua toda a gente soubesse o que se estava a passar menos os habitantes do 3ºD.
Tal como na galinha (por que raio e que estas historia precisam sempre da sabedoria de uma galinha?), tenho a ideia de ter pensado em fazer descer um pequeno rádio, mas já não tenho a certeza de lhe ter pousado no parapeito outra coisa que não sapatilhas. Acho que as primeiras duas foram devolvidas em segurança, a primeira duante a noite, com ela no quarto e a segunda durante o dia, muito depressa, sem saber onde estava ou sequer se tinha a persianas corridas. A terceira foi tambem durante o dia,entre o fim da tarde e a hora do jantar. É importante sublinhar que aqueles apartamentos, os da letra d, eram todos ao comprindo, um longo corredor dava a ligação entre todas as divisões da casa. Assim, todos os quartos, bem como a sala e a cozinha, tinham uma janela para rua. Do outro lado da rua, os prédios do Popicas. Uma infinidade de janelinhas e marquises com vista para um amontoado de varandas e portas de vidro.
Ela estava a comer a sopa. A mãe andava a cirandar pela cozinha, às vezes conversavam. O irmão andava lá para dentro ou então ainda nao tinha chegado, era da força aérea. Dá uma colherada na sopa e olha para o infinito, que estava a uma dezena de metros, cimêncio do outro lado da rua. Vê movimento numa das janelas, alguém à janela. Acho que era o Serro, depois pergunto-lhe. Depois repara que há mais alguém noutra janela, noutro andar. Talvez mais uma pessoa, ainda. Mas parecem todos a olhar mais ou menos para cá, parece que se estão a rir. Faz-se luz na cabeça da menina do roupão.
É agora, desata a correr pelo corredor, olha pela porta da sala, não entra mas repara que eles continuam a olhar para lá, para a varanda do quarto dela. Chega ao fim do corredor, vira-se à direita olha para o quarto, a porta está aberta, a persiana esta levantada, la fora, na varanda, está uma sapatilha a flutuar, a descer devagarinho a caminho do parapeito.
Precipitou-se para a varanda, puxou o fio e recuperou a sapatilha e a sanidade mental. Rodou o tronco e a cabeça para cima e lá me viu, no oitavo andar. Ainda me passou pela cabeça atirar-lhe um líquido à cabeça, mas daí para a frente era sempre a descer.
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.: Comentado por Blogger Carla de Elsinore : 5:57 da tarde  
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