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eternuridade
Eternuridade, s.f. (do lat. aeternitate por aglutinação com do lat. ternu). Qualidade efémera do que é terno. O que há de eterno no transitório. Afecto muito longo; tristeza suave e demorada. textos e fotos: gouveiamonteiro(at)gmail(dot)com LIGAÇÕES
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28 de maio de 2004
Informe

A verdade é que são muitos os dias em que quase não posso funcionar. Não tenho um espírito funcionário. É raro serem mais do que duas ou três as coisas que, num dado momento, posso fazer com a honestidade crítica das crianças. Frequentemente acordo com a missão única e urgente de ir ler a Vanessa para o jardim ou de assistir aos progressos da minha barba preguiçosa, que devia estar resolvida há anos, mas só agora se atreve a avançar para o derradeiro território, entre os maxilares superior e inferior.
Quando era novo eu recebia, de anos a anos, uma prenda sem preço. A minha avô levava-me a visitar o maior poeta de Coimbra, um semi-deus. Foram três escassos encontros, mas suficientemente intensos para me deixaram várias histórias. Lembro-me bem dos recantos do consultório e do escritório de casa (da pequena cama abraçada pelas estantes do escritório e inspirada em Montaigne, onde lia mais quente).
Na primeira visita contou-nos que a Clarinha quando era pequena chegou a casa a dizer que tinha visto uma tourada na televisão. O jogo, segundo a menina, consistia num homem a tentar vestir um casaco vermelho a um touro. Nesse dia ainda demonstrou que os cheiros são gatilhos de memórias e de lugares e provou o que dizia, tirando da gaveta uma ramo de alfazema carregadinho de Trás-os-Montes.
O mais importante acontreceu na última visita. Eu estava a acabar o liceu e tinha que escolher um curso. Tinha uma inclinação recente pela Filosofia, mas ao resto do mundo pareciam mais prudentes as Ciências da Comunicação, já que era isso que andava a tentar fazer: comunicar. Ele perguntou-me o que é que eu queria mesmo fazer. Achei que tinha de responder com verdade àquela pergunta era aquela e disse-lhe que queria escrever. Respondeu-me que fazia muito bem, se era disso que gostava. Mas avisou-me que era um trabalho difícil, pois teria que ler tudo o que já foi escrito, para saber por onde começar. Quanto aos estudos, disse-me para ignorar o mundo e escolher Filosofia e para ser do contra e mudar de opinião as vezes que fossem precisas. Isto porque, segundo o Poeta, eu sou informe, o que é mais raro e, por isso, mais útil. Era um poeta simpático.
No fim da conversa, já ele sabia que tinha à frente um aspirante, disse que quanto mais importantes são as coisas mais nomes têm. Testámos a teoria desfiando os muitos nomes do diabo e da morte.
Um ano depois ele tinha morrido e já eu saía da Filosofia e entrava na Comunicação. e ainda bem. Agora vou ser informe outra vez. Quando o mundo espera de mim que engorde e faça filhos vou fazer precisamente o contrário. Vou jogar à bola todos os dias e retomar o curso que ele ajudou a escolher. Trabalharei apenas para mim.
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