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eternuridade
Eternuridade, s.f. (do lat. aeternitate por aglutinação com do lat. ternu). Qualidade efémera do que é terno. O que há de eterno no transitório. Afecto muito longo; tristeza suave e demorada. textos e fotos: gouveiamonteiro(at)gmail(dot)com LIGAÇÕES
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13 de setembro de 2003
A queda (I)

"Eu que acreditava ter reconhecido aqui o lugar em que poderia viver para o resto da minha vida sem proporcionar ao destino a menor superfície de ataque. Mas o porto não é alternativa ao naufrágio, é o sítio onde se perde toda a felicidade da vida." "Tout est dangereux ici-bas, et tout est necessaire."

O círculo que nos envolve é sempre e cada vez mais pequeno. Nos primeiros momentos de desgraça, quando um vestígio do punho condenado ainda se crispa à superfície, o náufrago consegue vislumbrar a luz do céu, até a da lua. Mas o horizonte estreita-se sempre.
O céu e o mar juntam-se. É tudo mescla, magma e sombra. O navio do náufrago não existe, talvez nunca tenha existido e seja tão ilusório como a rocha que os náufragos julgam ver antes da morte. Todas as rochas desaparecem na espuma.
O náufrago está fora da cumplicidade entre estrelas e marinheiros. Outrora empunhara um leme, agora nada. Tudo é aceleração constante; abismo; derrapagem; vertigem de suspensão e negro. Um náufrago é uma coisa a ficar preta. A salvação não se mostra.
O infinito troça com o olhar escasso dos homens. É preciso mais, usar já o que se tem à mão. Reconhecer alguma coisa. E o olhar estrelado do universo acha divertida esta luta patética e põe na boca de um homem que não há solução porque não há problema. Está tudo tragicamente bem. Uma desgraça é a pequena variação, o choque mínimo necessário a que tudo fique na mesma. O pó dos dias transforma as tragédias em efemérides, meras estacas. O veludo azul encolhe-se de ternura pela pequenez do homem que vai morrer e sabe disso.
"Lucrécio remetia o naufrágio imediatamente para o nascimento da pessoa humana. Assim, a natureza lançaria a criança para a orla da luz (in lumini orgas) do mesmo modo que o nauta é atirado para a terra pelas vagas enfurecidas. No início da vida e não apenas no seu decorrer e fim." Daí o desespero e os banhos de imersão. Há necessidade e não há necessidade. Tudo se culpa e desculpa. E o naufrago pensa:
- Não posso continuar, não quero continuar, vou continuar.
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