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eternuridade
Eternuridade, s.f. (do lat. aeternitate por aglutinação com do lat. ternu). Qualidade efémera do que é terno. O que há de eterno no transitório. Afecto muito longo; tristeza suave e demorada. textos e fotos: gouveiamonteiro(at)gmail(dot)com LIGAÇÕES
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14 de setembro de 2003
O lance (VIII)

Tal como o rochedo onde surge a alucinação vã da sereia, todos os lances fixam o infinito num resultado único. Mas, como o rochedo e a generalidade do pensamento, o lance é imaginário. O acto poético fixa uma ideia segundo o sonho herdado de uma linhagem de poetas. As palavras devem ser resgatadas ao acaso para se transformarem em noções essenciais. Por acto que se assemelha ao lance de dados (que das séries de possibilidades extrai um resultado único que se torna inquestionável), a poesia fixa o infinito. É esse o número último, o resultado do lance que o velho parece não cumprir, mas que surge na imaginação do poeta associado ao aparecimento de um grupo de estrelas que, como os pontos na face do dado, surgem no firmamento.
Os fogos celestes que romperam a vigilância ao marinheiro sagram agora o derradeiro total. O lance ideal disseminou-se até à superfície superior e vaga da noite. Assim, esclarecido sobre a inutilidade da escolha, o velho prefere deixá-la incerta. Mas a simples lembrança desse acto ambíguo basta para que, no vazio da página dos céus, se desencadeie o lance ideal. O número, a verdade, deverão perder-se para sempre. Ainda assim surgem nas estrelas, por cima de todas as tragédias.
Depois dos videntes delirantes a poesia aspira agora à verdadeira dignidade da justificação metafísica. Usando processos exclusivamente analógicos e intelectuais, já não se atém a ser expressão aproximativa de um temperamento; inventário de inspirações e fenómenos efémeros; manifestação de um vago ideal.
"Há no verbo qualquer coisa de sagrado que nos impede de tranformá-lo num jogo de azar. É uma religião universal, criada pelos alquimistas do pensamento, uma religião que se desprende do homem, considerado como momento divino condenado a soberbas e ambícias."
Toda a espécie de poesia deve receber em si o próprio sentido e explicação do universo, ainda que por medrosa aproximação. O abismo essencial, aquele que faz a incomunicabiliade, continua por transpôr. Por isso, o homem deriva para conhecer a sua geografia. Não é sentado que lá se chega.
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